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  • HELIO BARROS

Aprenda a identificar os erros , e não erre como Napoleão




Sempre me incomodou como as passagens históricas, da forma pela qual a gente aprende na escola, são extremamente romantizadas.

Talvez você conheça a história da queda do grande imperador Napoleão Bonaparte, na que ficou conhecida como a Campanha Russa, na França, ou como Guerra Patriótica, na Rússia.

Com um império que chegou a ter sob seu domínio quase toda a Europa Ocidental e grande parte da Europa Oriental, de Portugal à Polônia, Napoleão chegou a controlar mais de 50 milhões de pessoas – quase um terço da população europeia.

Isso até a invasão à Moscou, no ano de 1812.

Na escola, o que aprendi era que Napoleão teria subestimado as condições climáticas do país, cego pelo desejo de ampliar geograficamente o chamado bloqueio continental.

Isto é, para competir economicamente com o forte Reino Unido, potência mundial dominante da época pelo seu Imperialismo, precisaria encontrar formas de ampliar o embargo comercial dos bretões com o resto do mundo.

Bom, de certa forma, não há nada errado com as premissas: a motivação era essa e o exército francês realmente sucumbiu ao frio.

Mas tratar os acontecimentos desta forma é reduzir, ou simplificar muito, o que realmente aconteceu. Ou ainda, ignorar a versão Russa da história.

O progresso está na reflexão

E isso é importante porque identificar precisamente os erros, como defende o megainvestidor Ray Dalio, é tão mais importante do que tentar encontrar boas oportunidades de investimento.

Como investidor, posso te dizer que esse reducionismo acontece o tempo todo e explica muito dos erros que cometemos.

Mesmo aqueles gastam tempo analisando os fundamentos de uma empresa, acabam tentando simplificar em poucos vetores certos acontecimentos que podem elevar ou diminuir o que seria o “preço justo” de uma empresa.

Isso, claro, na tentativa de simplificar o processo de análise. E, então, para que possam gastar mais tempo simulando o que aconteceria nos cenários A, B ou C.

A questão é que, na maior parte das vezes, o verdadeiro valor nasce justamente em quanto tempo foi gasto na interpretação de todos os vetores que criam ou destroem valor para um empresa.

Assim, você passa, definitivamente, a controlar as premissas e não ser controlado por elas.

Quando o lendário investidor Warren Buffett diz que você deve investir em empresas nas quais conhece e deve entender como elas ganham dinheiro, é exatamente isso que quer dizer.

Eu sei, até aqui tudo parece muito teórico, pouco prático, mas me dê uma chance de tentar tornar tudo mais claro.

A tática da terra arrasada

No livro “Napoleão 1812”, o brilhante escritor Nigel Nicolson faz uma reconstrução desse evento histórico e traz algumas conclusões muito interessantes.

Napoleão não subestimou as condições climáticas da Rússia, subestimou – na realidade – os reflexos de seus movimentos, afinal, seu exército de mais de 300 mil soldados era múltiplas vezes superior.

Seu exército era tão grande que, dado a tecnologia da época, não havia qualquer comunicação entre as primeiras fileiras e os que estavam na lanterna.

Como os russos adotaram a estratégia de terra arrasada, fugindo das cidades e queimando tudo que podiam antes da chegada dos franceses, os primeiros soldados morriam de fome antes mesmo do exército se dar conta do que estava acontecendo.

Ou seja, quando reduzimos a derrota de Napoleão ao frio russo, simplesmente ignoramos os seus erros estratégicos e todo sacrifício e planejamento russo.

No mercado, essa leitura incorreta poderia te custar muito caro.

Como contornar esse problema?

Minha primeira dica é: esqueça o tal do “preço justo” ou “preço alvo”.

O que faço, nos meus modelos de projeção, é o inverso do que a maioria dos analistas costumam fazer.

O benefício dessa abordagem é que: a expectativa de lucro e receita das empresas é algo que consigo controlar em meus modelos e comparar com o histórico das companhias.

Isso, inclusive, evita a fixação em um preço (só vou vender quando bater R$ X), já que esse “preço alvo” muda o tempo todo.

Veja, o que estou querendo dizer é que as pessoas costumam dar muito mais importância para as coisas que acontecem no curto prazo e se deixam levar por convicções temáticas que na maior parte das vezes não têm relevância.

Por isso, tente ir por um caminho diferente. Fazer o que ninguém está fazendo e se questionar o tempo todo.

Pegue os seus investimentos atuais e reflita. Será que não está caído na narrativa de comprar empresas de tecnologia? De migrar todo seus investimentos para o exterior?

Eu tomaria bastante cuidado.

Seja mais crítico e pense de forma realmente independente, para não aceitar como verdade a superficialidade do retrato da queda do império de Napoleão Bonaparte.

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